Introdução

Um dia navegando no LinkedIn, achei um comentário super aleatório em um post mais aleatório ainda. Nele, o que começava falando sobre caminhões foi estendido por várias pessoas até chegar no assunto de neuroplasticidade, o que pra mim foi bem engraçado. Naquele momento, estava a caminho do trabalho e por algum motivo parei pra ler aquela conversa toda, até que em um dos comentários achei uma indicação para um livro chamado “Aprendendo inteligência”.

Estou há algum tempo estudando sobre neurociência, simplesmente porque achei muito interessante e a cada assunto que aprendo, mais sinto vontade de ir me aprofundando. Por ironia do destino decidi ler essa indicação (obrigado rapaz aleatório do LinkedIn) e certamente foi uma das decisões que vão moldar a forma como eu estudo pra sempre.

Quebrando um pouco a sequência de artigos técnicos sobre programação, decidi trazer aqui o que defino como um “resumo” do livro Aprendendo inteligência do grande autor, Pierluigi Piazzi. Por ser focado para alunos de instituições escolares, ele puxa para o domínio de salas de aula para explicar muitas coisas, mas o conteúdo é enriquecedor de forma geral e conseguimos trazer os ensinamentos para nosso próprio contexto.

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Uma crítica ao sistema de educação brasileiro

Professor, escritor, radialista e por ai vai, Pierluigi inicia o livro se apresentando de forma direta. Logo nas primeiras páginas, ele adota um tom crítico para expor as falhas do sistema de ensino brasileiro. Sua principal acusação é clara: a escola do jeito que é hoje não ensina o aluno a aprender. No máximo, ensina ele a entender conteúdos de forma superficial, quase sempre voltada apenas para a memorização.

Pierluigi compara sua experiência em cursinhos pré-vestibulares à de um médico em uma UTI. Segundo ele, cursinhos são uma “UTI educacional”, responsável por tentar salvar vítimas de um sistema de ensino péssimo. Se a educação básica cumprisse o que deveria, os cursinhos não seriam tão indispensáveis para quem quer entrar na faculdade.

O problema principal é que o aluno foi condicionado a jogar um jogo de regras que não funcionam. Hoje, a regra é simples: o aluno estuda apenas para a prova. Assim, o estudo se torna obrigação imediata e não processo contínuo de aprendizagem.

A ilusão das provas

Para o autor, ter calendários de provas são uma das maiores distorções do ensino, fazendo com que muitos só se preocupem de fato em “estudar” quando estão perto dessa época. A avaliação deveria ser consequência natural da aprendizagem, não um evento marcado que incentiva a memorização temporária.

A escola deveria ser um espaço para formar pensadores autônomos, capazes de aprender de maneira independente em vez de alunos treinados para decorar.

Como deveria ser?

Diferentemente da forma como a educação brasileira incentiva a superficialidade e memorização, o ensino deveria ter como foco a formação da inteligência em si (o que deveria ser óbvio). Aprender de verdade não é decorar fórmulas ou repetir respostas prontas, mas sim desenvolver a capacidade de pensar, questionar, estabelecer relações e resolver problemas.

O primeiro passo seria inverter a lógica. Em vez de “estudar para a prova”, o estudante deve estudar para ele mesmo de forma contínua. O lema de Piazzi — “aula dada, aula estudada, hoje” — não é apenas uma frase de efeito que ele inventou, mas uma disciplina intelectual. O aprendizado precisa ser construído diariamente de modo que o conhecimento seja consolidado de forma permanente.

Outro ponto fundamental é a autonomia. A verdadeira função da escola deveria ser ensinar o aluno a aprender sozinho. O professor não deve ser alguém que apenas transmite conteúdo pronto, mas um intermediador que ensina estratégias, dá ferramentas e desperta a curiosidade. O aluno, por sua vez, deve assumir o papel ativo nisso tudo, lendo, anotando, revisando, relacionando ideias e se tornando responsável pelo próprio aprendizado.

Nesse modelo, as provas deixam de ser o principal e passam a ser apenas uma consequência natural. A avaliação então não será um evento de ansiedade, mas um momento de confirmação daquilo que já foi aprendido ao longo do percurso.

Pier reforça a importância do estudo baseado em três pilares: concentração, repetição e organização.

  • Concentração, para absorver o conteúdo de forma eficaz durante as aulas e leituras.
  • Repetição, porque o cérebro só fixa aquilo que é revisado várias vezes.
  • Organização, para que o aluno saiba planejar seu tempo e seu método de estudo, evitando acúmulo e improvisação de última hora.

Assim, a escola não seria mais focada em provas, mas sim em estimular o potencial dos alunos. O aprendizado deixaria de ser superficial e o estudante desenvolveria pensamento crítico, independência e gosto pelo estudo.

Analogia à máquina

Pierluigi Piazzi explica o funcionamento da memória humana fazendo uma analogia com um computador. Assim como uma máquina possui RAM (memória volátil) e HD (armazenamento permanente), o nosso cérebro também possui estruturas com papéis semelhantes. O cérebro contém um miolo chamado sistema límbico, composto por estruturas complexas como o tálamo, hipotálamo e as amígdalas, no qual se destaca o hipocampo, responsável pela formação da memória de curto prazo. Ela é nossa RAM e ao redor dela como uma casca de árvore (do latim, córtex) está nosso HD.

Mas como é salvo da RAM para o HD em nosso cérebro?

Durante o sono. Enquanto no HD as informações são gravadas de forma digital, no cérebro as informações só são retidas se a ligação entre neurônios forem alteradas. Um neurônio transmite sinais eletroquímicos a outros neurônios, formando cadeias de centenas ou milhares de conexões que constituem as redes neurais. Quanto mais essas conexões são estimuladas e reforçadas, mais sólida se torna a memória.

Uma informação então é transformada em conhecimento se as redes neurais forem reconfiguradas no córtex. Com estímulo frequente do cérebro, escrever no córtex durante o dia seria como trocar o pneu com o carro andando. É por isso que toda informação acumulada no dia fica na nossa RAM. Quando dormimos é quando o cérebro para pra poder finalmente “trocar o pneu”. Nesse momento nossa RAM é esvaziada e redes neurais são formadas com os dados importantes com todo o resto indo pra lixeira.

Mas como controlar o que vai pra lixeira?

Muito do que guardamos na memória depende da carga emocional envolvida. Nosso cérebro tende a preservar aquilo que vem acompanhado de sentimentos fortes (alegria, tristeza, raiva, medo).

“Ei, isso é importante, guarde com cuidado.”

Por isso, experiências neutras ou entediantes raramente ficam na memória por muito tempo. Se durante uma aula o professor resolve contar uma piada, é bem provável que no dia seguinte você se lembre da piada e não do conteúdo.

Pierluigi também usa outra metáfora: a escrita na areia. Durante o dia, milhares de informações são “escritas” superficialmente no sistema límbico. Quando o sono vem, é como se alguém despejasse cimento sobre essa areia, mas se a escrita foi rasa o cimento não fixa. Para que o cimento realmente registre a informação, é preciso escrever várias vezes no mesmo lugar, desse jeito a marca se aprofunda e quando o cimento endurece o traço é preservado para sempre no córtex.

Daí vem a grande lição: não adianta estudar muito de forma superficial. É melhor estudar pouco, mas com profundidade e constância. Isso respeita os limites do cérebro e garante que o conhecimento seja consolidado. O autor compara isso ao treino de academia, não é porque alguém treina dez horas por dia que terá dez vezes mais resultado do que quem treina apenas uma hora. Na verdade, o excesso causa desgaste e pode até ser prejudicial. O aprendizado funciona do mesmo jeito. É a disciplina diária, em pequenas doses consistentes que geram ganhos ao longo do tempo.

Em resumo, respeitar o funcionamento natural do cérebro é o caminho mais inteligente para aprender:

  • Estude com regularidade
  • Revise com frequência
  • Associe emoção ao conteúdo, para que a informação tenha mais chance de ser gravada.
  • Durma bem, pois é no sono que o cérebro consolida as memórias.

Como estudar?

Muitos são dedicados no estudo, mas estudam de forma ineficiente. Primeiro de tudo, tome cuidado com a distração.

Nosso cérebro transmite pulsos elétricos entre neurônios de forma muito mais devagar que transmissão de bits em um computador. Para superar isso é feito um processamento paralelo. O cérebro tem hemisférios cerebrais especializados em tarefas especificas. No hemisfério esquerdo temos os módulos cognitivos linguísticos e lógico, no hemisfério direito o musical e espacial. Portanto, se você estiver ouvindo sua música favorita ao mesmo tempo que faz equações matemáticas, você não saberá se canta ou estuda. Se quiser ouvir algo, prefira por ouvir uma música instrumental, dessa forma o módulo musical não só não vai disputar com os outros módulos como vai ajudar a inibir ruídos exteriores que podem atrapalhar sua concentração.

Sabendo o que não fazer, o que eu faço?

“Se eu ouço, esqueço. Se eu vejo, entendo. Se eu faço, aprendo” (provérbio chinês).

A resposta é simples: pare de ser apenas um espectador do próprio aprendizado. Ouvir videoaulas ou podcasts pode ajudar, mas não é o suficiente. O verdadeiro aprendizado acontece quando você se envolve ativamente com o conteúdo, seja quando escreve, resolve, explica, testa, erra ou refaz.

O cérebro precisa de ação para consolidar o conhecimento. Quando você apenas assiste algo, está usando a memória de curto prazo, mas quando põe a mão na massa, ativa múltiplas áreas cerebrais (motoras, sensoriais e cognitivas), reforçando as conexões neurais e fixando o que aprendeu.

Piazzi insiste nesse ponto: aprender é um verbo ativo. O estudante que copia, resume, ensina alguém ou aplica o que estudou, está treinando o cérebro para lembrar permanentemente. O simples ato de escrever já é uma forma de repetição que força o cérebro a reorganizar as informações, tornando mais acessíveis depois.

Por isso, na próxima vez que estudar, não se limite a assistir ou ouvir passivamente.

  • Anote com suas próprias palavras.
  • Explique o conteúdo em voz alta, como se desse uma aula.
  • Resolva exercícios e crie exemplos.

Como ser mais inteligente?

Antes de mais nada, o que é “inteligência”? Inteligência inicialmente pode ser definida como habilidade em descobrir regras. Lembrando que conhecimento é uma coisa, inteligência é outra. Você provavelmente já conheceu alguém muito inteligente, capaz de resolver problemas com facilidade, mas que não consegue explicar exatamente como chegou à resposta. A inteligência está na forma de pensar; o conhecimento, no que se sabe.

Existem ao menos 7 tipos de inteligência (ou melhor, módulos cognitivos):

  • Linguística
  • Lógica
  • Musical
  • Espacial
  • Psicocinética
  • Interpessoal
  • Intrapessoal

Você pode (até deveria) se desenvolver em cada uma delas. Não é porque tem dificuldade em se comunicar e facilidade em aprender matemática que você deve focar na inteligência lógica e negligenciar inteligência linguística e interpessoal, na verdade ai sim que você deve dar mais atenção, o contrário disso é preguiça mental.

5 passos para a inteligência:

Acreditar: acredite que você consegue aprender. Durante os anos de escola tive um amigo que eu considerava extremamente inteligente, tinha muita habilidade de comunicação (aquele cara carismático) e uma inteligência lógica impressionante, mas só tirava notas ruins por nunca lembrar dos conteúdos. Certa vez disposto a ajudar ele a estudar, sentei ao seu lado e começamos resolver problemas matemáticos, foi ali que entendi o motivo de tudo… Em qualquer sinal de dificuldade ele desistia e sempre dizia a mesma frase: “eu sou burro”. Mesmo tentando motivar, ele não se esforçava simplesmente por ter na cabeça dele a certeza de que era burro. Seja diferente, você sempre chegará onde acredita que você pode chegar, o primeiro passo sempre será acreditar.

Evitar a burrice: coisas como drogas e álcool certamente devem ser evitadas. Mas não apenas isso, tome cuidado com jogos, internet, televisão, etc. Por mais que pareçam inofensivas, te tiram o senso de realidade das coisas te deixando sem foco, sem força de vontade, sem concentração, mal educado e menos inteligente. Mídias digitais geram cargas altas de dopamina sem nenhum esforço, tome cuidado, tudo que vem fácil faz mal, o melhor prazer é aquele que vem após a dificuldade de obtê-lo.

Estudar pouco: como já comentado anteriormente, não ultrapasse seu limite. Em certo momento o conteúdo não irá mais entrar na sua cabeça e será descartado pelo seu cérebro. A diferença não está em estudar muito, mas sim em estudar todo dia.

Se desafiar: se coloque em situações de dificuldade. Esse é o ponto que separa pessoas inteligentes de burras. Inteligentes sempre tentarão achar a resposta por si mesmo e se colocar em situações desfavoráveis, o prazer delas é conseguir sair do outro lado. Enquanto isso, preguiçosos sempre irão pelo caminho mais fácil.

Ler muito: ler é lazer. Leitura é a melhor forma de se tornar mais inteligente, nela você desenvolve diversos pontos da sua inteligência. Quanto mais você ler, melhor será seu foco, vocabulário, rapidez de raciocínio entre outros fatores. Inclusive existem diversos problemas que vem pela falta de leitura, sendo algum deles**:**

  1. Falta de vocabulário
  2. Interpretação de texto
  3. Dificuldades para redigir uma redação
  4. Lentidão para entender textos, sendo necessário diversas vezes a mesma leitura

Pessoas mais inteligentes tendem a ser cada vez mais inteligentes e o contrário também é verdade. Isso é por conta do efeito/causa de uma retroalimentação incentivadora, ou seja, alguém mais inteligente será curioso e estudará cada vez mais, enquanto os desprovidos estarão sempre buscando o caminho mais fácil.

Conclusão

Na frente de cada um de nós existe a escada da inteligência infinita e que independe de idade para poder subir, mas seus degraus são pequenos, então se você quiser subir bastante, você não pode parar nunca de aprender, subindo sempre um degrau de cada vez.

Este livro, assim como Poder do hábito, sem dúvidas mudou a minha visão de como estudar. Deixo aqui uma palestra que o autor fez no Youtube e recomendo demais sua visualização.